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Fim da primeira fase do projeto aPEaSE reforça agenda científica sobre fact-checking

O projeto aPEaSE – Verificar os Verificadores de Factos: práticas e eficácia no sul da Europa concluiu recentemente a fase de revisão da literatura e começa agora a apresentar publicamente os seus primeiros resultados. Esta etapa marca o início de uma nova fase de consolidação teórica e visibilidade científica da equipa de investigação. Entre as participações mais recentes, destaca-se a comunicação apresentada na conferência internacional ICOMTA 25 – International Conference on Communication, Media, Technology and Art, realizada em Valdivia, Chile. A apresentação, intitulada “Contested Veracity: Fact-Checking, AI and the Politics of Disinformation in Southern Europe”, analisou criticamente 122 estudos empíricos publicados entre 2020 e 2025 sobre práticas de fact-checking em Portugal, Espanha e Itália. A análise identificou três eixos principais que estruturam o ecossistema atual: a crescente integração da inteligência artificial nos processos de verificação; os constrangimentos estruturais enfrentados por projetos de fact-checking, como escassez de recursos e visibilidade periférica; e a centralidade política da desinformação, frequentemente instrumentalizada por atores da extrema-direita para deslegitimar o jornalismo. Estes resultados apontam para a necessidade de compreender o fact-checking enquanto prática situada, sujeita a pressões tecnológicas, editoriais e ideológicas. A equipa do projeto esteve também presente no IV Congresso da Rede Nacional de Estudos Culturais, com a comunicação “Tendências e enfoques da investigação sobre fact-checking no Sul da Europa”. A apresentação sintetizou os principais debates identificados na literatura recente, com especial atenção às dinâmicas de circulação, consumo seletivo e barreiras à eficácia das correções factuais, num contexto crescentemente polarizado e digitalizado. Além da participação em conferências, a investigação do projeto já deu origem a três publicações científicas que abordam dimensões distintas do fact-checking no espaço europeu: •Shadows and lights on fact-checking research: trends, method-ologies, and empirical approaches •Contested Veracity: Fact-Checking, AI and the Politics of Disinformation in Southern Europe •Efeitos do fact-checking: revisão e enquadramento dos seus efeitos O projeto prossegue agora com a fase empírica de investigação, que inclui observação direta, entrevistas com jornalistas, experiências com públicos e análise automatizada da circulação de conteúdos em ambientes digitais.
Verificar os verificadores: por que importa estudar o fact-checking hoje?

Nas últimas décadas, a confiança pública nos media e nas instituições informativas sofreu um abalo profundo. A ascensão das plataformas digitais não apenas facilitou o acesso à informação, como também abriu caminho a uma nova desordem informacional (feita de rumores, teorias da conspiração, manipulações calculadas e meias-verdades). Neste cenário, o fact-checking surgiu como uma tentativa de resposta. Uma tentativa de reocupar o terreno da verdade factual num espaço cada vez mais marcado pela disputa e pela saturação. Mas o que sabemos realmente sobre a eficácia do fact-checking? Será que corrige de facto perceções erradas? Quem o consome? Quem o rejeita? E com que critérios julgamos a sua autoridade? Apesar da sua crescente presença no debate público e no jornalismo contemporâneo, o fact-checking permanece uma prática pouco compreendida e, muitas vezes, idealizada. O projeto aPEaSE – Verificar os Verificadores de Factos: práticas e eficácia no sul da Europa é financiado pela FCT e parte precisamente desta inquietação. O nosso ponto de partida é simples: se o fact-checking se tornou um dos instrumentos centrais de combate à desinformação, então é fundamental compreender em que condições essa promessa se cumpre e quando, pelo contrário, falha ou produz efeitos inesperados. Ao longo de dezoito meses, estudaremos as principais iniciativas de fact-checking em Portugal, Espanha e Itália, com particular atenção à forma como estas práticas são construídas, distribuídas e recebidas pelos públicos. O projeto combina observação direta, entrevistas e inquéritos populacionais. Procuramos articular estas dimensões com a análise computacional das redes de circulação digital. O nosso objetivo não é apenas avaliar o desempenho de cada projeto, mas compreender os fatores que moldam o impacto do fact-checking. Porque se existe hoje um consenso sobre a ameaça que a desinformação representa, permanece em aberto o debate sobre as melhores formas de enfrentá-la. Estudar o fact-checking é, nesse sentido, muito mais do que avaliar um formato jornalístico. Este projeto existe para lançar perguntas, produzir dados, mas também para abrir espaço ao escrutínio. Porque a verdade, mais do que nunca, precisa ser construída em comum e a sua defesa exige não só convicção, mas método e crítica.
